Não Morreram
Luz

Não há flashes na vida do artista.

Não é a razão pelo levantar cedo, nem motivo pela subida nos palcos.

Não há flashes na vida do artista.

O que há é luz. Refletores que iluminam a arte, que permanecem acesos, sem piscar.

A luz dos olhos daqueles que assistem, capaz de perpetuar a verdadeira poesia.

Não há flashes na vida do artista.

Cabe a ele saber disso e transformar cada flash em uma luz que não se apaga.

Mereço?

A dúvida não parte puramente da sensação de estar perdido, até porque a própria sensação não condiz com a realidade. Logicamente, nem por dúvida podemos tomar, pois dentre os milhões não há uma única resposta. A pergunta é retórica, surge da análise superficial tirada de um mundo onde valores não são tão importantes quanto o seu espelho.

Já são quase 50 milhões. De um projeto que era pra ser tão simples, tão fácil, nasceu algo muito maior talvez até mesmo que seu merecimento. Não que o merecimento seja uma condição sólida, se por detalhes individuais de interpretação o julgamos, nada mais é que uma variável para cada indivíduo e, podendo significar tantas coisas, acaba significando nada. O merecimento é ilusório, não existe, a não ser pra você, pra mim e para o João, que no final das contas discordará de você, que discordará de mim. E o que é não deixará de ser.

Julgamo-nos tão espertos, tão analíticos, tão maduros e, no final das contas, somos todos formados por medos, inseguranças e sonhos. Criticamos e condenamos aquilo que não somos, mas que nos incomoda e, se por fato tomamos a premissa, não podemos dizer que somos indiferentes. Já dizia Dona Maria: “nenhum dos pregos misturados na caixinha toma martelada, apenas o que sai dela”. Virar alvo de críticas me ensinou, principalmente, que mesmo na pior das análises não há a indiferença. Isso, por si só, é razão para sorrir.

Obrigado pelas pedras, pois uso cada uma delas para construir minha casa. E muito obrigado pelos aplausos, que me motivam a fazê-lo.

Medos

Chaplin

Muitos pensam que é fácil. Muitos buscam por algo sem fazer ideia exatamente do que vão encontrar. Supervalorizam tudo isso quando não vejo motivo algum para um grande orgulho ou satisfação pessoal. Embora devo confessar: quando mais novo, sonhava com tudo o que me vem acontecendo hoje.

Antes soubesse, naquela época, que realmente não existe nada demais em tudo isso, ou mais ainda, soubesse que verdadeiramente iria chegar a viver o que considerava um sonho, mas sob a forma de realidade comum, nem lá nem cá, embora um pouco mais lá que cá.

A velocidade me pegou de um jeito que eu não poderia prever. Afinal, se foi rápido, a previsão torna-se coadjuvante. Junto a isso, o preparo também ficou longe de bater ponto. Sem preparo, tudo fica ainda mais complexo. A sedução gerada pelos gritos enlouquecidos de fãs é algo impossível de se explicar. Quantos se perderam nesse estágio? O que me impede de trilhar o mesmo caminho suicida? Ou ainda mais, onde será que irei buscar a força necessária para conviver com tudo isso de forma a não me perder? Não sei, só sei que sei. Talvez minha criação tenha sido fundamental, ou meu processo de amadurecimento, fato é que essa sedução vem encontrando um escudo que eu não imaginava ter, embora todo o impacto absorvido tenha gerado efeitos muito desagradáveis, que agora preciso vencer numa batalha épica de uma pessoa só.

Acredito que praticamente todos os complexos humanos sejam causados pelo medo. O medo define muita coisa, prejudica imensamente qualquer ser humano. Hoje, tenho medo. Embora ninguém saiba, embora me vejam como uma pessoa segura, o medo é algo presente em minha vida. Lutar contra ele é como golpear fumaça ou incorporar o Sheldon na tentativa de explodir a cabeça do oponente só com a mentalização. O medo não bate na porta, não avisa que está chegando e muito menos se retira quando solicitado. Enfrenta-se o medo com atitudes e com o auto-conhecimento, partindo do primeiro passo, a confissão do medo. Não tenho vergonha em tê-lo, aliás, não compartilhar dele seria provavelmente
prepotente e arrogante, tendo em vista tudo o que vem acontecendo em minha vida. Gritar segurança e estabilidade emocional seria não apenas mentiroso, como covarde. E provavelmente o primeiro passo para a ruína.

Não sei ao certo o motivo de produção desse texto. Estou no aeroporto, aguardando meu vôo. Não tenho qualquer intenção de publicá-lo, talvez seja apenas um desabafo solitário, uma forma de deixar claro para mim mesmo: não há fama, dinheiro ou prazer suficiente para segurar sua estabilidade emocional. Pelo contrário, são esses os principais ingredientes para uma vida desajustada e perigosa. Estou no início de tudo isso e somente agora percebo, mesmo que em menor escala, tudo que envolve a vida artística realmente. Eu bem achava que era fácil.

Do medo vem a angústia, a insegurança, o pânico do fracasso. Mas dentro do pacote também posso notar a vontade de provar pra mim mesmo de que sou capaz, embora, confesso novamente, algumas vezes chego a questinar de forma violenta essa capacidade. Um turbilhão de emoções, presente em qualquer indivíduo que tenha vivido nos palcos e baseado sua vida na arte, agora elevado a milésima potência. Não posso dizer que tudo isso irá acabar, pois foi da boca da própria Fernanda Montenegro que ouvi que não há ator de verdade que não sinta nervosismo antes de entrar em cena, a não ser os arrogantes. Assumo meus medos, assumo minhas inseguranças e prometo pra mim mesmo que, seja qual for o desafio, jamais deixarei que esses sintomas controlem minha mente e corpo o suficiente para fazer com que eu não tenha a força para vencê-los. A coragem e o compromisso artístico hão de falar mais alto, sempre.

“A vida é uma peça que não permite ensaios” – Charles Chaplin.

Não morreram

Diz o que eu faço,

pra recuperar o meu espaço,

nas sombras do que já fomos,

dos sonhos que já não se falam.

A luz ofuscada,

Por um colorido que não reflete,

Apenas suga o que lhe é de fato,

Verdes notas vazias de arte.

O ciclo infinito da moda,

Traduzindo em tendência o que os porcos comem,

Antes fosse o resto do bom prato,

Com o conteúdo que sustenta o espírito.

Vazios, sem vida, os aplausos perdem o sentido,

Reduzimos o amor a uma junção de dedos,

Não há mais o sensível,

poucos querem saber disso.

Mas os poetas não morreram,

Enquanto houver AR, faça o que TE inspira,

Queremos a verdadeira essência da arte,

Chega de alegoria com recheio de lixo.